Ciclos do destino

Diversas correntes filosóficas e religiosas acreditam na reencarnação. Entretanto, o fato de perceber-se como espírito eterno, vivenciando múltiplas experiências na Terra, muitas vezes pode levar a uma visão simplista e fatalista da vida. Este ponto de vista tem consequências diretas no comportamento, na relação com o mundo, com o outro e com as escolhas em situações diversas e adversas. A ideia superficial de "Karma" ou "causa e efeito" pode nos levar a agir em sentido contrário ao que acreditamos.

  • Quando se busca apenas a justificativa em vidas passadas para dificuldades presentes , observando as histórias alheias, pode estar implícito (ou mesmo explícito) um julgamento de valor sobre o outro. Por essa lógica se ele tem uma deficiência "cometeu muitos erros e está pagando". Esse pensamento pode nos levar a agir de modo a anular a ajuda, uma vez que ele "merece" passar por isso ou então ajudá-lo como "coitadinho", agindo com arrogância, embora sem intenção. Ou seja, sou melhor porque não precisei passar por isso.
  •  Em situações dolorosas, justificamos que é "Karma", consequências de outras vidas e portanto, pode abrir espaço para a sensação de "culpa". "Mereço sofrer porque fui mau em outra vida". Esta postura mental pode levar a pessoa a não reagir ou até mesmo buscar o sofrimento para ter a impressão de que está se libertando do passado.
  • Se temos uma vida tranquila, sem grandes dificuldades, tendemos então a achar que "somos menos devedores" perante as leis de Deus. Deste modo, os ricos, aqueles que têm tudo o que a vida material traz de paradigma da felicidade é uma pessoa "mais abençoada", tem menos "karma".
Essa visão superficial da reencarnação, talvez seja uma adaptação de um conteúdo filosófico profundo e consolador à necessidade de "classificar" o mundo, uma perspectiva dualista,  que nossa sociedade aplica a todo o conhecimento nas diversas áreas.

Colocaremos apenas alguns pontos para reflexão sobre esse assunto.

  • A história humana coletiva e individual é complexa. Vivemos em diferentes contextos, sociedades, tempos. Do  ponto de vista humano há vida encarnada e outra espiritual, mas do ponto de vista cósmico é um continum. Vida simplesmente. Desta forma não há "uma causa um efeito", mas múltiplas situações com consequências diversas e ainda escolhas de caminhos em diferentes fases e níveis de consciência da história individual e coletiva. 
  • A vida atual é uma síntese de tudo o que vivemos, porém sempre estamos em ação no mundo (espiritual ou material). Isto significa que muitas situações são frutos de nossas escolhas e comportamentos na atual encarnação. Além disso é preciso considerar que pode-se passar por dificuldades e dores consequentes do contexto geral do planeta, imersos que estamos em determinado tempo histórico (ou "era"), com suas conquistas e vulnerabilidades. Por essa razão "lutar é preciso".
  • Independente de felicidade ou sofrimento, a vida é sempre uma experiência transformadora. Não existe a estabilidade, a permanência ou  a estagnação. Nenhuma situação é definitiva. Os desafios surgem de diversas fontes e maneiras. As  respostas a eles desenham o futuro.

Muito mais se pode dizer, mas fica aqui essa reflexão: não temos condição e não nos cabe avaliar todo esse complexo divino que compõe nossas vidas ou a de outrem. Sempre estamos colhendo, sempre estamos plantando. Para mim, assim se resume o desafio humano no ciclo do destino: mesmo na colheita de espinhos, é possível semear flores.


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