"A Cabana do Pai Tomás": clássico, comovente e... mediúnico?


Algumas obras literárias conhecidas mundialmente atravessam séculos, falam à alma humana. Parecem vir de uma fonte de inspiração superior, acessível à sensibilidade do artista, que coloca ali também o seu talento, o seu estilo e repertório. Alguns destes livros apresentam um processo de criação tão espontâneo, vívido, que surpreende o próprio autor, assemelhando-se muito a uma revelação ou materialização de um texto pré existente. Nestes casos, existe uma grande semelhança entre o modo de produção artística e das obras mediúnicas. Obviamente não se pode afirmar categoricamente nem mesmo provar cientificamente que tais obras de autores consagrados tenham como origem uma inteligência externa ao escritor (um espírito).

“A cabana do Pai Tomás” é uma destas obras. Foi publicada em 1852 por Harriet Beecher Stowe, vendeu milhões de exemplares e, em diferentes gerações, foi comentada e criticada por diversas correntes sociais, políticas e literárias. É uma história de fé, coragem, determinação, perseverança e luta pela liberdade, vivida entre os escravos norte-americanos e os ricos proprietários de terras no sul dos Estados Unidos. Emocionante, comovente. Nosso objetivo, entretanto, não é discutir análises sobre o romance ou o papel da terna figura de Pai Tomás, personagem dócil e piedoso, que conquistou tantos leitores. Nosso interesse aqui é sobre o processo de produção do livro, tema deste artigo. Ernesto Bozzano em seu livro “Literatura de além túmulo”, logo no capítulo I trata sobre a relação entre a obra bem inspirada, não vinculada à matriz espírita, e a possibilidade de ter sido produzida do mesmo modo que a literatura mediúnica. Vejamos:


[...] Quero referir-me à célebre escritora sra. Harriet Beecher- Stowe e ao seu bem conhecido romance A Cabana do Pai Tomás, o qual muito contribuiu para a abolição da escravatura nos Estados Unidos da América.
O meio familiar em que viveu Harriet Beecher-Stowe pode ser considerado como favorável a intervenções espirituais. O prof. James Robertson assim fala na revista Light (1904, pág. 338):
“O marido, prof. Stowe, era médium vidente. Ele viu muitas vezes, ao redor de si, fantasmas de defuntos, de maneira tão nítida e natural que por vezes lhe era difícil discernir os espíritos “encarnados” dos “desencarnados”. 
“Quanto à sra. Beecher-Stowe, ela era também grande sensitiva, sujeita a crises freqüentes de depressão nervosa com fases de ausência psíquica”. Ela acolhera com entusiasmo o movimento espírita que se iniciara na América, havia alguns anos.
Relativamente ao seu grande romance A Cabana do Pai Tomás, extraio da revista Light (1898, pág. 96) as seguintes informações:
“A sra. Howard, amiga íntima da sra. Beecher-Stowe, forneceu essas curiosas indicações relativamente às modalidades nas quais o famoso romance foi escrito. As duas amigas estavam em viagem e pararam em Hartford para passarem a noite em casa da sra. Perkins, irmã da sra. Stowe. Elas dormiram no mesmo quarto. A sra. Howard despiu-se imediatamente e ficou, do seu leito, observando sua amiga ocupada em pentear, automaticamente, seus cabelos anelados, deixando transparecer em seu rosto intensa concentração mental. Nesse ponto, a narradora continua assim:
Finalmente Harriet pareceu sair desse estado e disse-me:
– Recebi, nesta manhã, cartas de meu irmão Henry que se mostra bastante preocupado a meu respeito. Ele teme que todos esses elogios, que toda esta notoriedade que se criou em torno de meu nome, produzam o efeito de provocar em mim uma chama de orgulho que possa prejudicar minh’alma de cristã.
Isto dizendo, pousou o pente, exclamando:
– Meu irmão é, incontestavelmente, uma bela alma, porém ele não se preocuparia tanto com esse caso se soubesse que esse livro não foi escrito por mim.
– Como – perguntei eu, estupefata –, não foi você quem escreveu A Cabana do Pai Tomás?
– Não – respondeu ela –, não fiz outra coisa senão tomar nota do que via.
– Que está dizendo? Então você nunca foi aos Estados do Sul?
– É verdade, todas as cenas do meu romance, uma após outra, se me desenrolaram diante dos olhos e eu descrevi o que via.
Perguntei ainda:
– Pelo menos você regulou a seqüência dos acontecimentos?
– De modo algum – respondeu-me ela –; sua filha Annie me censura por ter feito morrer Evangelina. Ora, isso não foi por minha culpa; não podia impedi-lo. Senti-o mais do que todos os leitores; foi como se a morte tivesse atingido uma pessoa de minha família. Quando a morte de Evangelina se deu, fiquei tão abatida que não pude retomar a pena por mais de duas semanas.
Perguntei-lhe então:
– E sabia que o pobre pai Tomás devia, por sua vez, morrer?
– Sim – respondeu-me ela –, isto eu o sabia desde o princípio, porém ignorava de que morte iria morrer. Quando cheguei a esse ponto do romance, não tive mais visões durante algum tempo.”
Em outro número da mesma revista, (1918, pág. 325), relatou-se o seguinte episódio sobre o mesmo assunto:
“Certa tarde, a sra. Beecher-Stowe passeava sozinha, como de hábito, no parque. O capitão X. viu-a, aproximou- se dela e, descobrindo-se respeitosamente, disse-lhe: Na minha mocidade, li também com intensa emoção A Cabana do Pai Tomás. Permiti-me apertar a mão da autora do célebre romance. A escritora, septuagenária, estendeu-lhe a mão, notando, entretanto, vivamente:
– Não fui eu quem o escreveu.
– Como, não foi a senhora? – perguntou o capitão, surpreso –. Quem o escreveu então?
Ela respondeu:
Deus o escreveu. Foi Ele quem ma ditou.”
Na primeira das duas passagens acima, que acabo de citar, nota-se uma emergência espontânea da subconsciência da autora, consistindo em visões cinematográficas que traçam a ação do romance, o que oferece grandes analogias com as modalidades da cerebração donde saíram romances de outros autores de gênio, tais como Dickens e Balzac. Estes últimos, por sua vez, viam desfilar, subjetivamente, as cenas e os personagens que tinham imaginado. A diferença entre as suas visões e as da sra. Beecher-Stowe parece, então, consistir nesta última circunstância: eles assistiam ao desenvolvimento de acontecimentos que a sua imaginação consciente tinha criado, ao passo que a sra. Beecher-Stowe assistia, passivamente, ao desenrolar de eventos que não tinha criado e que estavam, muitas vezes, em oposição absoluta à sua vontade, pois que, por ela, não teria feito morrer duas santas personagens do seu romance.
Esta circunstância é importante e parece fazer distinguir as visões subjetivas, comuns aos escritores de gênio, das tidas pela sra. Beecher-Stowe, da mesma maneira que as “objetivações de tipos”, estereotipadas e automatizadas, que se obtêm pela sugestão hipnótica, não apresentam nada de comum com as personalidades mediúnicas, independentes e livres, que se manifestam por intermédio de verdadeiros médiuns.
A presunção de que não se tratava de visões puramente subjetivas adquire mais eficácia ainda graças à segunda das duas passagens já citadas, na qual a sra. Beecher-Stowe declara, explicitamente, ter transcrito seu romance como ele lhe fora ditado, o que prova que a célebre autora era médium escrevente, circunstância que se acha confirmada por fatos assinalados na sua biografia, segundo os quais ela era sujeita a “fases de ausência psíquica” que eram, com toda verossimilhança, estados superficiais de transe.
Em outro ponto de vista, faço notar que a exclamação da sra. Beecher-Stowe: “Deus o escreveu”, subentende que o ditado mediúnico se realizou sob forma anônima, isto é, que o agente espiritual operante ocultava a própria individualidade, limitando- se, ao que parece, a cumprir na Terra a missão de que se encarregara: a de contribuir, eficazmente, graças a uma narrativa emocionante e pungente, para a obra humanitária da redenção de uma raça oprimida.
Julguei poder tirar do caso a conclusão que venho de narrar. Todavia, não insisto nela, considerando que estas induções não são suficientes para concluir a favor da origem realmente espírita do romance em questão. 
É necessário, todavia, notar que as bases sobre as quais repousam as induções a favor de uma explicação puramente subjetiva dos estados da alma por que passou a autora, quando trabalhava em seu grande romance, parecem bem mais fracas, quando são analisadas, que as da interpretação espírita dos mesmos fatos.
 
Esta análise nos faz refletir.A fonte da inspiração divina imunda a Terra com toda a sua beleza e pujança. Pessoas sensíveis vão colhendo algumas gotas no recipiente de sua alma. E graças a elas, vez por outra somos presenteados, por gerações a fio, com palavras de luz.
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