Fé e merecimento?


Interessante dedicar um momento de reflexão sobre os chavões que usamos com freqüência, como justificativa para as situações difíceis da vida. Usarei aqui, apenas para ilustrar, o problema da doença e da cura. Uma pessoa adoece por um conjunto complexo de motivos: fatores ambientais, emocionais, hábitos de vida, vulnerabilidades orgânicas, entre outros. Uma vez que a doença se instala, as pessoas buscam a cura de diversas formas, entre elas a ajuda espiritual. É então que se verifica, no discurso daqueles  responsáveis por este tipo de  trabalho, o pressuposto básico que a cura depende da “fé e merecimento”.

Em primeiro lugar, verificamos que nos locais de atendimento espiritual há o conceito de que apenas a cura é considerada como vitória. Mas se somos espíritos eternos, não há fundamento nesta idéia. A vitória pode ser atribuída mais à atitude e ao modo de enfrentamento da doença do que a cura ou a morte.

Vamos analisar agora os dois itens: “fé e merecimento”. Todas as pessoas com ou sem fé adoecem e morrem. No percurso da vida, parte dos seres humanos adoece e se cura algumas vezes.  Portanto, a fé não é determinante no processo de cura, mas um elemento facilitador ou potencializador do tratamento médico e energético / espiritual. Ao realizarmos orações ou meditações nos colocamos em estado receptivo à ajuda espiritual, nosso cérebro envia mensagens químicas que proporcionam bem-estar e melhor absorção dos medicamentos e ainda conseguimos eliminar grande parte das toxinas, reduzindo prováveis efeitos colaterais dos tratamentos medicamentosos. O que não significa cura garantida.  Portanto é errado dizer que a pessoa não conquistou a cura por falta de fé ou por sua fé não ser suficiente.

Quanto ao merecimento, diz respeito às nossas atitudes pessoais desta ou de outras vidas que poderiam mobilizar os recursos divinos em favor da cura. Ou seja, as pessoas “boas” não deveriam adoecer, ou se isto ocorre, a cura seria certa, já que a pessoa tem uma vida pautada na ética, no trabalho e no amor. Verificamos que algumas doenças realmente são parte de nosso histórico de vida, como desafios ao nosso crescimento. Portanto, não se trata de merecimento, mas de crescimento.  Todos precisamos enfrentar desafios e a doença é apenas um deles. A cura ou a morte envolve fatores complexos, pois a vida pessoal se conecta à vida social. O que nos ocorre sempre gera impactos nas pessoas mais próximas. Então, os espíritos superiores certamente tomam decisões considerando toda essa teia de relações e de impactos oriundos da presença ou não da pessoa na Terra. Além disso, devem certamente decidir de modo a considerar não só a situação atual de todos, mas o futuro. O indivíduo que consegue manter uma postura ativa em todas as situações, não se entregando ou se lamentando diante das adversidades,  permanecendo de pé na luta, independentemente de continuar encarnado ou não, será sempre um modelo possível a outras pessoas que com ele se relacionam.

Assim, podemos dizer que a orientação de que para obter a cura é preciso “fé e merecimento” é simplista e superficial. Não ajuda e ainda responsabiliza a própria pessoa por tudo o que lhe ocorrer.  Entretanto, nem todas as situações da vida estão sob nosso controle. Jesus morreu aos 33 anos e teve um grande impacto sobre toda a estrutura de idéias dos séculos seguintes. Nossa história, como todas, dá um livro. Não importa quantas páginas tenha, mas o conteúdo que divulga.
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