Suicídio na adolescência: os que ficam

Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas geralmente não podia
Adriana Falcão em "Mania de Explicação"

Quando escrevi o artigo sobre suicídio na adolescência, algumas questões foram levantadas por amigos que passaram pela experiência de ter um parente que partiu dessa forma. Coloco trechos da resposta que uma amiga enviou sobre o assunto.  O sobrinho de Maria suicidou-se, após oscilar entre períodos de sanidade e de desequilíbrio, vontade de viver e atitudes destrutivas.
"Perder alguém dessa forma é uma dor indescritível. Temos um sentimento de impotência muito grande, uma sensação estranha de "como não percebi  que isso era um risco real?" ou "o que eu poderia ter feito para  evitar?" , ou ainda, "em que momento a decisão foi tomada?" Os familiares mais próximos se sentem culpados e pensam que aconteceu por  não terem dado importância a algum detalhe. Ficam procurando evidências que sinalizam o fato, nas últimas falas e ações da pessoa.  Há evidentemente muitos sinais, como seu texto aponta muito bem. Mas  algumas vezes são sutis ou nos "acostumamos" com alguns comportamentos da pessoa que está em desequilíbrio, desconsiderando a sua condição de tomar uma decisão como essa. Preocupa-me a desesperança que acompanha a família quando pensa no filho suicida pois, além da dor da perda, das "culpas", há a falta de  perspectiva de "salvação espiritual" do suicida, já que a maioria das  religiões não dá elementos em que se apoiar nesse sentido. Nesse sentido, dentro de uma perspectiva espírita, cristã, acho importante a reflexão sobre esses sentimentos reais que ficam com a família, que acentuam a  dor da perda e que contribuem para desestruturar ainda mais a família. 
Pensei muito na magnitude do ataque espiritual  de que a familia foi vítima e, em especial, no sentimento de  fraqueza e impotência diante do ocorrido."

Ao ler esta mensagem de Maria, logo se nota que o tema é muito abrangente e são necessários muitos livros e artigos para cada um dos ítens apontados por ela. Colocarei alguns pontos para reflexão considerando o ser humano não apenas como um ser social, biológico, cultural e psicológico, mas como espírito milenar.  O espírito não é criado no momento da conepção ou do nascimento, mas vem de uma longa história, muitas vidas e traz para o presente suas conquistas e suas tendências.

A influência espiritual (conhecida como obsessão) não pode ser descartada quando há o suicídio. Coloco a seguir apenas um exemplo da causa da obsessão..

Assim como o jovem se identifica e se agrega aos amigos, influenciando-os e sendo por eles influenciados, também não se pode descartar a influência das companhias espirituais sinistras que atuam sobre as famílias ou um de seus componentes, que em alguns casos leva ao suicídio. Não é um jogo de bem e mal, mas teias de relações que se contróem, muitas vezes por séculos a fio, em que grupos de pessoas se envolveram em dramas dolorosos,  suscitando o desejo de vingança e inimizades duradouras. Porém é possível quebrar este círculo de ódio, mesmo depois do suicído de um ente querido, buscando a ligação, através da mente e da oração sincera,  com amigos espirituais que nos seguem e que também conquistamos no presente ou no passado distante. Um outro recurso para fazer girar a roda do destino no sentido da superação da dor, é acessar as falanges luminosas que atuam em favor da humanidade nos centros espíritas, igrejas, templos diversos, grupos de ajuda.

A culpa 
Diante da complexidade que envolve o ato do suicídio, realmente não é possível culpar alguém ou culpar-se.  São tantos fatores desencadeadores, que a família não tem instrumentos para cercar a todos eles. As dicas de prevenção são importantes, mas não são garantias, já que nossos filhos são espíritos eternos, imbuídos de livre arbítrio e que trazem de outras eras suas dores, seus desafios, seus vínculos. Assim, embora os princípios e aprendizados que a família busca desenvolver junto às gerações mais novas, não é possível determinar ou controlar os caminhos que os jovens seguirão na vida, como espíritos independentes que são.

Por essa razão me lembrei da definição de Adriana Falcão sobre a culpa.  Este sentimento nos prende no passado, achamos que poderíamos ter feito diferente, mas realmente não podíamos. Paralisa nossos passos, dificulta a reação para a sublimação da dor: tocar a vida e, por exemplo,  ajudar outros jovens em nome daquele que partiu. A mágoa, a sensação de impotência, os questionamentos são reações naturais da alma atônita e é preciso que se esgotem. Não devem ser cultuados. E jamais devemos nos esquecer da misericórdia divina. Quando Jesus partiu da Terra, passou dias socorrendo espíritos que estavam em desequilíbrio no plano espiritual. Com isso criou um novo paradigma diante da Justiça de Deus: o da infinita misericórdia. "Não vim para os Sãos", disse Ele. Portanto, se a situação de um suicida na espiritualidade não é fácil, o socorro divino é presente, sempre. Sem julgar, sem desesperar, apenas confiemos nossos jovens que buscaram a morte voluntária Àquele que socorre a todos, que destruiu a idéia Inferno, criando sistemas de acolhimento e consolação,  de perdão e aprendizado.   "Na casa de meu Pai há muitas moradas", falou Jesus. E todos os endereços seguem pela trilha do Amor.
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