domingo, 4 de abril de 2010

Era uma vez e ainda é

Você sabia que espiritismo já foi crime no Brasil? Por uma lei publicada em 1890, era considerado  curandierismo, magia, enfim,  algo que se opunha à Igreja Católica e ao clero. Célia da Graça Arribas, socióloga, fez sua pesquisa de mestrado na USP sobre esse assunto. Os espíritas estavam sujeitos a prisão e multa.

De acordo com a pesquisadora, em 1890 o Código Penal tornou o espiritismo - por não considerá-lo uma religião - assunto para delegacias de polícia. “Praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancias para despertar sentimentos de ódio ou amor, inculcar cura de moléstias curáveis ou incuráveis, enfim, para fascinar e subjugar a credulidade pública [art. 157] era crime punível com “prisão cellular por um a seis mezes e multa de 100$000 a 500$000 [100 mil a 500 mil réis, grafia antiga]”.

“Prisão celular” é o mesmo que privação de liberdade, em regime fechado, cumprida em penitenciária. A multa máxima correspondia a cerca de US$ 270 pelo câmbio de 1890. Segundo Célia, os efeitos práticos desse artigo se estenderam até a década de 1960 (mesmo com as alterações do Código de 1940, vigente até hoje).

Segundo a pesquisa,  tornar  espiritismo uma religião foi a melhor saída, já que  pela própria legislação de 1891 qualquer culto religioso era livre e permitido: “todos os indivíduos e confissões religiosas podem exercer pública e livremente o seu culto”. Por isso, floresceu no Brasil o espiritismo como religião.

Vale  refletir sobre a luta e a discriminação que os espíritas e o espiritismo sofreram  no início da sua divulgação e organização aqui no Brasil. Quantos lutaram, foram presos, debateram em tribunas, enfrentaram e expuseram opiniões corajosas na imprensa da época. 

Atualmente, assumir-se espírita ou espiritualista não  implica mais em grande ousadia. A discriminação é hoje considerada  inaceitável legalmente, moralmente e eticamente. Filmes, reportagens diversas têm surgido chamando atenção para o assunto. Neste ano, falar de espiritsmo é quase inevitável. Nota-se que grande quantidade de pessoas  simpatizam com a filosofia espírita, especialmente pela possibilidade do contato com parentes desencarnados. Ao mesmo tempo, porém, há alguns anos venho observando o recrudescimento do preconceito contra os espíritas. Multiplicam-se na TV e nas igrejas pastores e padres condenando, maldizendo e demonizando os espíritos,"homens de ciência" tentando combatê-lo, o senso comum tratando de assuntos essenciais (vida, morte, sobrevivência da alma) de modo sensacionalista e desrespeitoso. E estas atitudes exacerbadas trazem consequências nefastas, não para o espiritismo, o espiritualismo ou os espíritas.  Mas para a formação ética e moral do ser humano.


O episóidio ocorrido com os jogadores de futebol do time do Santos foi emblemático. O time foi visitar um lar espírita de assistência social à crianças com deficiência mental. Ao descobrirem que era uma instiuição espírita, apenas onze jogadores entraram na instituição: Felipe, Wladimir, Edu Dracena, Zé Eduardo, Arouca, Pará, Gil, Maikon Leite, Breitner, Zezinho e Wesley. O restante, inclusive Robinho, ficou no ônibus. Se recusaram a descer "por motivos religiosos". Foi um "gol contra". Sintoma da ignorânica  sobre o assunto e de uma campanha explícita e subliminar de outras religiões e de alguns "homens de ciência" contra o espiritismo e o espiritualismo em geral. O obstáculo é mais sutil hoje do que no século XIX. E embora o espiritismo esteja na TV, no cinema e "na boca do povo", ainda há um longo caminho a percorrer na direção, não da liberdade, que esta já temos  grantida por lei, mas do respeito mútuo.   É o processo humanizador que nos cabe.


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