Reencarnação: vagas lembranças, uma experiência

Quando assistimos ou lemos depoimentos de crianças que possuem lembranças de uma vida passada, nos parece algo excepcional, curioso, interessante e muitas vezes ficam dúvidas se isto realmente acontece ou se por acaso não é uma interpretação "forçada" das falas infantis. Mas quero deixar aqui o relato de uma experiência que tivemos (e que continua nos surpreendendo) com uma criança matriculada na escola onde trabalho. Atendemos crianças de 4 a 6 anos de idade. Alguns ainda estão para completar 4 anos. Um destes meninos, que aqui chamarei de Eduardo, é bem infantil, chupa chupeta, tem fraldinha de cheiro e faz algumas manhas. Porém, há momentos em que fala com linguagem e segurança muito diferentes de seu estilo. E  nestas horas que as lembranças da encarnação anterior emergem com tamanha naturalidade, a ponto de Eduardo não perceber que, para os adultos, há algo de estranho em sua narrativa.

Tudo começou no segundo dia de aula, quando ele estava brincando e, de repente, se aproximou da professora e disse, com voz segura e autoridade: "Professora, posso falar com você?". Começou assim. Coloco aqui alguns fragmentos desta e de outras conversas que têm nos impressionado a cada dia e tem causado perplexidade nas pessoas que não acreditam em reencarnação.

Eduardo disse então à professora: "Você sabia que eu fui político em Brasília? Eu tinha três carros: um maverik 8 válvulas, um opala e um passat". E continuou: "Mas eu gostava mesmo do Maverik", e forneceu detalhes do carro que pouca gente sabe. Disse ainda: "Eu trabalhava no escritório, aí eu perdi (o trabalho, o emprego, a eleição?) e fiquei só com um carro, o passat".

Talvez pela atenção que recebeu, surgiram outros momentos destes relatos. "Eu era casado, tinha três filhos". "Quando?" - perguntou a professora. "Quando eu era grande!" (com cara de "óbvio"). "Como é Brasilia?". "Muito diferente daqui, é mais legal. É muito calor".

Um dia, brincando com um notebook na brinquedoteca, começou a falar: "Estou preparando uma entreveista para o Michael Schumacker". As crianças estavam todas brincando e fazendo barulho. Eduardo reclama, como quem manda:  "Fale para eles pararem de fazer barulho porque assim não consigo concluir o meu trabalho!".

E mais uma de suas lembranças, a última que coloco aqui. Ao ser questionado se frequentava alguma igreja, ele respondeu: "Ia na igreja espírita". A  maior parte de seus relatos revela o contexto entre das décadas de 70 e 90. A segurança de sua voz apresenta um grande contraste em relação aos seus momentos "normais" em sala de aula.

Sua avó, bem como a família, não conhecem Brasília, são do Nordeste, gente simples e evangélica. Então, a avó disse para a professora: "Este menino está com uma imaginação fértil demais! Onde já se viu? Fica falando em Brasília, sei lá onde é, coisas que inventa". Talvez por isso ele fale mais sobre isso com a professora, que acredita nele.

Muitas crianças apresentam as lembranças de outra vida. Mas geralmente são levadas à conta de imaginação. A criança, por sua vez, nesta fase do desenvolvimento, não entende o ponto de vista do outro, não percebe que os adultos estranham suas falas. A escuta é algo que perdemos, em nossa sociedade consumista e acelerada. Escutar é aprender, escutar as crianças é conviver com o inusitado. Observar este comportamento de nosso aluno é surpeendente, mesmo para nós, que temos as vidas sucessivas como fato consumado. E sacode a poeira das concepções sobre a vida, a morte e a individualidade.
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