sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A história triste: ainda um pouco mais

Já postei aqui algumas informações sobre A história triste. É uma obra em três partes: Panda, Hatte e Jesus. Na minha opinião, Patience Worth é para a literatura mediúnica o que Guimarães Rosa é para a literatura brasileira.


De início, a história é enigmática, até um tanto obscura. Talvez, ao iniciar o livro, nos sintamos como se, ao sair da claridade do dia, penetrássemos em uma igreja iluminada apenas pelos vitrais.

Aos poucos nossos olhos distinguem objetos, percebem tesouros cheios de beleza e sabedoria. Não espere uma narrativa seqüencial e romanesca. As histórias entrelaçadas das personagens vão se revelando aos poucos. O leitor acostumado à pressa da sociedade contemporânea deve reduzir seu ritmo, acrescentar paciência e profundidade para usufruir do conteúdo que autora transmite ali.

Metáforas, linguagem indireta fazem parte da forma como ela se expressa. As personagens se movimentam no cotidiano das gentes que viviam no tempo de Jesus: mercados, pastoreio, tecelagens. Esse tempo/espaço é marcado por histórias de perdas, sofrimentos, busca da verdade.

A narrativa traz também a eloqüência que nos lembra Shakespeare. Nada é superficial. Tudo é intenso: o brilho da lua, as ovelhas na montanha, as pessoas que nascem, vivem e morrem, o poder de Roma, as traições e amizades.

Em alguns pontos verificamos que a autora interpreta de modo muito próprio episódios como o da tentação de Cristo no deserto. Neste caso, ela apresenta Jesus nos campos e um agente de Roma (nada espiritual como Satanás nos evangelhos), oferecendo em nome de Tibério terras e riquezas.

Há muitas outras passagens envolvendo Jesus em seu cotidiano e na relação com as personagens. Tentei extrair alguns trechos de sabedoria e beleza. Confesso que não foi fácil escolhê-los:

“A madrugada chegara sobre Nazaré. As montanhas estavam envolvidas em cor-de-rosa; o manto celeste mostrava-se enfeitado de estrelas e de nuvens brancas; os vinhedos brilhavam como gotas de pedras preciosas e o ar perfumado soprava levemente sobre os campos recobertos de vegetação; e as ovelhas ainda dormiam deitadas.” (Hatte, cap. 17, p. 175)

“O ódio é a cinza do amor que cai ao chão para florescer de novo." (Hatte, p. 183)


“O ódio mede a sabedoria com a taça do ódio, e o amor faz com que a taça seja pequena demais para contê-lo.” (Hatte, p. 240)

“E Nazaré envolveu-se dentro da luz do luar. Os insetos noturnos cantavam, e o som do silêncio moveu-se lentamente pelas montanhas acima. E a estrela prateada ainda brilhava, firme, firme, firme!” (Hatte, p. 266)

Em breve colocarei outras passagens.
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