domingo, 13 de dezembro de 2009

Jesus, este divino humano



Jesus não inventou uma religião, uma instituição ou um título. Ele vivenciou e transformou conceitos e paradigmas. Uma revolução tão intensa que a humanidade não suportou e teve que criar hierarquia e mecanismos de preservação dos mesmos modelos anteriores a Cristo: troca de favores e dinheiro, centralização do poder, entre outras formas de dominação.


Mas o impacto das palavras e da sabedoria de Jesus – com suas histórias, curas, fenômenos, autoridade e amor – repercute não apenas na mente, mas na essência humana. É interessante pensar no modo como as pessoas da época o percebiam.

Maria, uma menina, no conceito de hoje uma adolescente, com um menino encantador em seus braços. Filho de carpinteiro, ele certamente foi um profissional dessa área. Provavelmente era uma pessoa alegre, as crianças o amavam. Sua vida simples provavelmente nada deveria ter da pompa e dos muitos mistérios que lhe foram acrescentados. Espírito milhares de anos adiante de seu tempo, em comunhão com as esferas divinas, realizava fenômenos de cura, materialização, entre outros. Mas isso acontecia também em outras culturas. O contato com o divino não é privilégio de alguns.

O diferencial em Jesus eram suas palavras, sua vibração de amor e seu exemplo. O Verbo significa esse conjunto. A linguagem transcende a lógica, forma, conceitos, transmite sensações. E Jesus sabia calar e falar. Um educador e um condutor. Dois fatores que justificam a grande influência dele sobre as pessoas e o temor que despertava nos poderosos de seu tempo: o Amor profundo e abrangente gerava empatia e os exemplos lhe conferiam autoridade inquestionável, legitimando seus ensinamentos. Nenhum outro filósofo ou profeta reuniu todas essas coisas com tanta coerência e continuidade.

Coloco apenas algumas rupturas importantes que Jesus promoveu na visão de mundo da humanidade e que tem até os dias atuais profundas conseqüências na história, na organização social e no "eu interior" ou espírito de tantas pessoas:

1) O conceito de Deus: Jesus aproximou Deus dos homens, tornando-o acessível a todos, sem necessidade de sacerdotes ou líderes. Pela prece se faz contato com o Criador. Além disso, colocou a idéia de um Deus amoroso e justo. Ao mesmo tempo Deus deixou de ser antropomórfico e passou a ser entendido como um ser transcendente, criador e organizador de tudo o que existe através da lei do amor. Um Deus que perdoa e permite a reparação do erros.

2) A definição de ser humano: Jesus colocou o valor das pessoas em sua essência e não em classificações de etnia, função, poder. Igualou escravos e senhores como irmãos na medida em que ressalta a transitoriedade de todas as máscaras criadas pelas sociedades e culturas. Valorizou o Homem Nu, com sua essência e conquistas íntimas, seu caráter e individualidade, despido de aparências e convenções deste mundo.

3) O poder: Jesus ensinou e demonstrou que o poder não está em quem governa, mas em quem ama. O amor tem o poder de transformação como força irresistível, silenciosa, universal. Nenhum poder terreno se compara a este, que não pode ser delegado ou instituído por outras pessoas, ou por uma lei, pois tem origem na essência de Deus em nós.

Seria esse Jesus humilde, acessível, sensível, amoroso, humano e por tudo isto divino, que as pessoas viam nesta época? Como poderemos saber? Para nós que acreditamos no testemunho dos espíritos, há um belo exemplo que nos dá uma idéia da força e emoção causadas pela simples proximidade com Jesus, que, como espírito, até os dias de hoje nos envia sua mensagem não como uma acusação ou obrigação a aceitá-lo, mas como um convite ao autoconhecimento, à consciência de nossa essência divina e à renovação constante. Este testemunho está no livro Há dois mil anos..., de Emmanuel:

"Foi nesse instante que, com o espírito como se estivesse sob o império de estranho e suave magnetismo, ouviu passos brandos de alguém que buscava aquele sítio.

Diante de seus olhos ansiosos, estacara personalidade inconfundível e única. Tratava-se de um homem ainda moço, que deixava transparecer nos olhos, profundamente misericordiosos, uma beleza suave e indefinível. Longos e sedosos cabelos molduravam-lhe o semblante compassivo, como se fossem fios castanhos, levemente dourados por luz desconhecida. Sorriso divino, revelando ao mesmo tempo bondade imensa e singular energia, irradiava da sua melancólica e majestosa figura uma fascinação irresistível.

Públio Lentulus não teve dificuldade em identificar aquela criatura impressionante, mas, no seu coração marulhavam ondas de sentimentos que, até então, lhe eram ignorados. Nem a sua apresentação a Tibério, nas magnificências de Capri, lhe havia imprimido tal emotividade ao coração.

Lágrimas ardentes rolaram-lhe dos olhos, que raras vezes haviam chorado, e força misteriosa e invencível fê-lo ajoelhar-se na relva lavada em luar.

Desejou falar, mas tinha o peito sufocado e opresso. Foi quando, então, num gesto de doce e soberana bondade, o meigo Nazareno caminhou para ele, qual visão concretizada de um dos deuses de suas antigas crenças, e, pousando carinhosamente a destra em sua fronte, exclamou em linguagem encantadora, que Públio entendeu perfeitamente, como se ouvisse o idioma patrício, dando-lhe a inesquecível impressão de que a palavra era de espírito para espírito, de coração para coração:

– Senador, porque me procuras? – e, espraiando o olhar profundo na paisagem, como se desejasse que a sua voz fosse ouvida por todos os homens do planeta, rematou com serena nobreza: – Fôra melhor que me procurasses publicamente e na hora mais clara do dia, para que pudesses adquirir, de uma só vez e para toda a vida, a lição sublime da fé e da humildade...

Mas, eu não vim ao mundo para derrogar as leis supremas da Natureza e venho ao encontro do teu coração desfalecido!...

Públio Lentulus nada pôde exprimir, além das suas lágrimas copiosas, pensando amargamente na filhinha; mas o profeta, como se prescindisse das suas palavras articuladas, continuou:

– Sim... não venho buscar o homem de Estado, superficial e orgulhoso, que só os séculos de sofrimento podem encaminhar ao regaço de meu Pai; venho atender às súplicas de um coração desditoso e oprimido e, ainda assim, meu amigo, não é o teu sentimento que salva a filhinha leprosa e desvalida pela ciência do mundo, porque tens ainda a razão egoística e humana; é, sim, a fé e o amor de tua mulher, porque a fé é divina... Basta um raio só de suas energias poderosas para que se pulverizem todos os monumentos das vaidades da Terra...

Comovido e magnetizado, o senador considerou, intimamente, que seu espírito pairava numa atmosfera de sonho, tais as comoções desconhecidas e imprevistas que se lhe represavam no coração, querendo crer que os seus sentidos reais se achavam travados num jogo incompreensível de completa ilusão.

Não, meu amigo, não estás sonhando... – exclamou meigo e enérgico o Mestre, adivinhando-lhe os pensamentos – Depois de longos anos de desvio do bom caminho, pelo sendal dos erros clamorosos, encontras, hoje, um ponto de referência para a regeneração de toda a tua vida.

Está, porém, no teu querer o aproveitá-lo agora, ou daqui a alguns milênios... Se o desdobramento da vida humana está subordinado às circunstâncias, és obrigado a considerar que elas existem de toda a natureza, cumprindo às criaturas a obrigação de exercitar o poder da vontade e do sentimento, buscando aproximar seus destinos das correntes do bem e do amor aos semelhantes.

Soa para teu espírito, neste momento, um minuto glorioso, se conseguires utilizar tua liberdade para que seja ele, em teu coração, doravante, um cântico de amor, de humildade e de fé, na hora indeterminável da redenção, dentro da eternidade... Mas, ninguém poderá agir contra a tua própria consciência, se quiseres desprezar indefinidamente este minuto ditoso!

Pastor das almas humanas, desde a formação deste planeta, há muitos milênios venho procurando reunir as ovelhas tresmalhadas, tentando trazer-lhes ao coração as alegrias eternas do reinado de Deus e de sua justiça!

Públio fitou aquele homem extraordinário, cujo desassombro provocava admiração e espanto.

Humildade? Que credenciais lhe apresentava o profeta para lhe falar assim, a ele senador do Império, revestido de todos os poderes diante de um vassalo?

Num minuto, lembrou a cidade dos césares, coberta de triunfos e glórias, cujos monumentos e poderes acreditava, naquele momento, fossem imortais.

Todos os poderes do teu império são bem fracos e todas as suas riquezas bem miseráveis.

As magnificências dos césares são ilusões efêmeras de um dia, porque todos os sábios, como todos os guerreiros, são chamados no momento oportuno aos tribunais da justiça de meu Pai que está no Céu.

Um dia, deixarão de existir as suas águias poderosas, sob um punhado de cinzas misérrimas. Suas ciências se transformarão ao sopro dos esforços de outros trabalhadores mais dignos do progresso, suas leis iníquas serão tragadas no abismo tenebroso destes séculos de impiedade, porque só uma lei existe e sobreviverá aos escombros da inquietação do homem – a lei do amor, instituída por meu Pai, desde o princípio da criação...

Agora, volta ao lar, consciente das responsabilidades do teu destino...

Se a fé instituiu na tua casa o que consideras a alegria com o restabelecimento de tua filha, não te esqueças que isso representa um agravo de deveres para o teu coração, diante de nosso Pai, Todo-Poderoso!...

O senador quis falar, mas a voz tornara-se-lhe embargada de comoção e de profundos sentimentos. Desejou retirar-se, porém, nesse momento, notou que o profeta de Nazaré se transfigurava, de olhos fitos no céu...

Aquele sítio deveria ser um santuário de suas meditações e de suas preces, no coração perfumado da Natureza, porque Públio adivinhou que ele orava intensamente, observando que lágrimas copiosas lhe lavavam o rosto, banhado então por uma claridade branda, evidenciando a sua beleza serena e indefinível melancolia.

Nesse instante, contudo, suave torpor paralisou as faculdades de observação do patrício, que se aquietou estarrecido.

Deviam ser vinte e uma horas, quando o senador sentiu que despertava. Leve aragem acariciava-lhe os cabelos e a Lua entornava seus raios argênteos no espelho carinhoso e imenso das águas.

Guardando na memória os mínimos pormenores daquele minuto inesquecível, Públio sentiu-se humilhado e diminuído, em face da fraqueza de que dera testemunho diante daquele homem extraordinário.

Uma torrente de idéias antagônicas represava-se-lhe no cérebro, acerca de suas admoestações e daquelas palavras agora arquivadas para sempre no âmago da sua consciência.”

(Do livro Há dois mil anos..., ditado pelo espírito Emmanuel ao médium Francisco Cândido Xavier, ed. FEB, p. 84)

Muito mais há para dizer. Mas não agora, não aqui. Fiquemos com este pequeno fragmento para refletir no sentido da vida de Jesus, este ser humano divino.
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