Letargia e catalepsia: recordando a história de Yvonne Pereira


.Tendo, pois, Maria chegado aonde Jesus estava, e vendo-o, lançou-se aos seus pés, dizendo-lhe: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.Jesus pois, quando a viu chorar, e também chorando os judeus que com ela vinham, moveu-se muito em espírito, e perturbou-se.
E disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: Senhor, vem, e vê.
Jesus chorou.
Disseram, pois, os judeus: Vede como o amava.
E alguns deles disseram: Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também com que este não morresse?
Jesus, pois, movendo-se outra vez muito em si mesmo, veio ao sepulcro; e era uma caverna, e tinha uma pedra posta sobre ela.
Disse Jesus: Tirai a pedra. Marta, irmã do defunto, disse-lhe: Senhor, já cheira mal, porque é já de quatro dias.
Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?
Tiraram, pois, a pedra de onde o defunto jazia. E Jesus, levantando os olhos para cima, disse: Pai, graças te dou, por me haveres ouvido.
Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste.
E, tendo dito isto, clamou com grande voz: Lázaro, sai para fora.
E o defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço. Disse-lhes Jesus: Desligai-o, e deixai-o ir. (João;11;32 a 44)

Letargia (do latim lethargia) é a perda temporária e completa da sensibilidade e do movimento por causa fisiológica, ainda não identificada, levando o indivíduo a um estado mórbido em que as funções vitais estão atenuadas de forma tal que parece estarem suspensas, dando ao corpo a aparência de morte. O paciente jaz imóvel, os membros pendentes sem rigidez alguma, a respiração e o pulso ficam praticamente imperceptíveis, as pupilas dilatadas e sem reação à luz. Há casos em que o paciente, apesar da inércia absoluta, tudo percebe e compreende, mas se encontra totalmente impossibilitado de reagir de qualquer forma. Por motivo da atividade psíquica conservada durante esse estado letárgico, dá-se o nome de letargia lúcida. Antigamente, devido a falta de recursos da medicina, havia casos de pessoas dadas como mortas e que, posteriormente, no caso de exumações, verificou-se que o cadáver se encontrava em posição diferente da qual fora colocado no caixão ou de tampas arranhadas, sugerindo que tais pessoas foram enterradas vivas durante um estado letárgico. Atualmente a medicina reconhece como mortas somente as pessoas que não apresentem nenhuma atividade cerebral, o que impossibilitaria tal fato.

Catalepsia – É um distúrbio que impede o doente de se movimentar, apesar de continuarem funcionando os sentidos e as funções vitais (só um pouco desaceleradas). A pessoa fica parecendo uma estátua de cera. O ataque cataléptico pode durar de minutos a alguns dias, e o que mais aflige quem sofre da doença é ver e ouvir tudo o que acontece em volta, sem poder reagir fisicamente. As causas, porém, ainda são um mistério, apesar de não faltarem hipóteses e especulações.

Na letargia, o corpo não está morto, porquanto há funções que continuam a executar-se. Sua vitalidade se encontra em estado latente, como na crisálida, porém não aniquilada. Ora, enquanto o corpo vive, o Espírito se lhe acha ligado. Em se rompendo, por efeito da morte real e pela desagregação dos órgãos, os laços que prendem um ao outro, integral se torna a separação e o Espírito não volta mais ao seu envoltório. Desde que um homem, aparentemente morto, volve à vida, é que não era completa a morte.
[Livro dos Espíritos, questão 423]

Por meio de cuidados dispensados a tempo, podem reatar-se laços prestes a se desfazerem e restituir-se à vida um ser que definitivamente morreria se não fosse socorrido.
O magnetismo, em tais casos, constitui, muitas vezes, poderoso meio de ação, porque restitui ao corpo o fluido vital que lhe falta para manter o funcionamento dos órgãos. (Ver: Passe de cura)
A letargia e a catalepsia derivam do mesmo princípio, que é a perda temporária da sensibilidade e do movimento, por uma causa fisiológica ainda inexplicada. Diferem uma da outra em que:
Na letargia, a suspensão das forças vitais é geral e dá ao corpo todas as aparências da morte;
Na catalepsia, fica localizada, podendo atingir uma parte mais ou menos extensa do corpo, de sorte a permitir que a inteligência se manifeste livremente, o que a torna inconfundível com a morte.
A letargia é sempre natural; a catalepsia é por vezes magnética.
[Livro dos Espíritos, questão 424]

Embora sejam raros, estes fenômenos necessitam de pesquisa por parte da ciência, na perspectiva da espiritualidade. Em seu livro Recordações da mediunidade, Yvonne Pereira descreve o fenômeno do ponto de vista espírita. Destacamos o que doutor Bezerra de Menezes argumenta, em uma mensagem que consta do livro: “A catalepsia, tal como a letargia, não é uma enfermidade física, mas uma faculdade que, como qualquer outra faculdade medianímica, mal orientada se torna prejudicial ao seu possuidor. Como as demais faculdades, suas companheiras, a catalepsia e a letargia também poderão ser exploradas pela obsessão de inimigos e perseguidores invisíveis”. Verificamos casos muito curiosos, a que Yvonne se refere, nos quais a pessoa fica com suas funções vitais suspensas, em um desdobramento mais ou menos consciente, a tal ponto que se produz cheiro e características cadavéricas. Um médium bem assessorado retoma naturalmente suas funções vitais, sem nenhuma marca em seu corpo do que se passou. Em Barra Mansa, Yvonne Pereira conheceu Zico Horta, um médium e expositor espírita que trabalhava com uma médium chamada “Chiquinha”. "Tratava-se de uma médium de 19 anos, finamente educada. "Sua mediunidade, no início, apresentou-se como enfermidade para a qual os recursos médicos foram insipientes. Sob os cuidados de Zico Horta, tornou-se uma médium de admiráveis possibilidades, com a insólita faculdade da catalepsia. Em vinte minutos, a médium atingia os diversos níveis da catalepsia, chegando a apresentar-se com característica de um cadáver que estivesse falecido há 24 horas, em início de decomposição. Surgiam placas esverdeadas pelo corpo, e o odor desagradável da decomposição. Algumas vezes narrava fatos que via no espaço, transmitia instruções dos espíritos e até mesmo penetrava o corpo humano com sua visão espiritual que fornecia diagnósticos precisos.
Yvonne Pereira tinha esta mesma faculdade, que lhe ocorreu pela primeira vez aos 29 dias de vida. Após uma crise de tosse, ficou como morta, por seis horas. O médico deu o atestado de óbito; a família providenciou o velório. Sua mãe, porém, não acreditava em sua morte e, quase à hora do enterro, ajoelhou-se e pediu com fervor a Nossa Senhora (sua mãe era católica devota). Em sua prece, rogava que, se sua filha estivesse morta, aceitaria, porém, se estivesse viva, que voltasse. Ouviu-se a seguir um choro estridente. Foram retirados todos os apetrechos mortuários. Felizmente a menina estava viva.
Novamente aos oito anos ocorreu o fenômeno de desdobramento com morte aparente, presenciado apenas por sua “babá”. E foi com esta idade que ela leu pela primeira vez O livro dos espíritos. A partir de então, sempre o fenômeno acontecia em horários noturnos, de modo que não incomodava as pessoas. Atualmente há uma concepção materialista na medicina que busca oferecer a cada dor da vida um remédio, como se tivéssemos todos a obrigação de ser feliz. Os desafios, próprios da vida, são percebidos como um grande mal, e a tristeza como uma anormalidade. Nestes tempos é que fala mais alto o exemplo de Yvonne. A convivência com esta mediunidade, entre outras, juntamente com as recordações de vidas passadas, expressas nos seus livros psicografados, nos quais ela mesma é protagonista, fizeram com que Yvonne superasse obstáculos diversos em uma vida de lutas, renúncias e expiações, que a transformou em um Espírito Vencedor e em uma referência de sublimação.


Para saber mais

"Recordações da mediunidade, Yvonne A Pereira

" O vôo de uma alma", Augusto Marques de Freitas

Biografia de Yvonne A. Pereira


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