Caderno que revela um homem: Chico Xavier

Sempre que lemos algo sobre Chico Xavier, sua obra e sua vida, verificamos que é ressaltada a pouca formação escolar, um letramento precário, pouco contato com o conhecimento formal. Imaginamos assim uma pessoa com um repertório literário pobre, que apenas servia de instrumento passivo aos espíritos. Já verificamos que a publicação e os conteúdos dos livros contavam com a participação de uma equipe desencarnada e encarnada, incluindo o próprio Chico, um médium com papel ativo na tomada de decisões. Mas o achado de Magali Oliveira Fernandes, relatado no livro "Chico Xavier, um herói brasileiro no universo da edição popular" traz luz sobre o menino, o jovem Chico Xavier. Trata-se de um caderno, com colagens, anotações diversas. Uma preciosidade reveladora de um Chico leitor /escritor que selecionava, recortava e colava imagens e textos de escritores que tratavam de temas diversos, como o amor e a vida. Em um trecho do livro de Magali, consta a seguinte descrição: "(...) Em certa página, Chico Xavier chegou a colar o desenho de um relógio na forma de um enorme coração. Perto do relógio um retrato de um casal se beijando e alguns poemas de Virgínia Victorino, que se intitulavam "confissão" e "renúncia" e mais um soneto , em cujo último verso se podia ler:"E embora saiba que não vens...espero!".
Este trabalho de colagem e edição representa um tempo em que Chico ainda estava no anonimato. Toda esta tarefa que realizava de reunir e selecionar papéis já editados e formar uma outra "edição" , que ganhava novo sentido em um caderno, deveria ser o espaço de prazer, de libertação de sua rotina. Magali descreve: "(...)Um ano antes, em 1923, de o caderno ser usado para contas, ele havbia então concluído o curso primário e se afastado, contra sua vontade, da escola. Restava-hlhe inventar e viabilizar uma outra maneira de se manter o contato com o universo das escrituras que tanto lhe agradava...(...)"
A partir do que revela este caderno, podemos concluir que Chico Xavier tinha um repertório poético, literário superior à sua formação escolar. Esta obra feita de tesoura e cola pelo jovem Francisco nos mostra a face do escritor capaz de produzir cartas aos milhares, tão inspiradas e bem redigidas. A elaboração, a construção deste acervo feito de colagens e notações serviu (quem sabe?) como elemento facilitador do trabalho mediúnico, que teria possibilitado ao médium desempenhar um papel ativo na produção e edição de sua exptensa obra. Deste ponto de vista, o seu papel na psicografia teria sido muito mais abrangente do que apenas o momento da recepção das mensagens. Uma coisa é certa. Chico Xavier sabia muito mais do que aparentava e era muito mais do que o a figura de herói humilde constuída em suas inúmeras biografias poderia revelar.
Para saber mais leia o livro "Chico Xavier, um herói brasileiro no universo da edição popular" de Magali Oliveira Fernandes
Comentários